Filho Pródigo (continuação)

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Foi com esta decisão que ele se pôs a caminho para voltar. Na parábola do filho pródigo não é usado, nem uma vez sequer, o termo “justiça”; assim como não é usado também no texto original, o termo “misericórdia”. Contudo, a relação da justiça com o amor, que se manifesta como misericórdia, acha-se inscrita com grande precisão no conteúdo desta parábola evangélica. Torna-se mais claro que o amor se transforma em misericórdia quando é preciso ir além da norma esta da justiça: norma precisa e, muitas vezes, por demais estritas. O filho pródigo, depois de ter gasto os bens recebidos do pai, ao regressar, merece apenas ganhar para viver, trabalhando na casa paterna como um empregado e, eventualmente, ir adquirindo, pouco a pouco, certa quantidade igual aos que tinha esbanjado. Essa seria a exigência da ordem da justiça, até porque aquele filho, com o seu modo de comportar-se, não tinha somente dissipado a parte da herança que lhe cabia, mas tinha também magoado profundamente e ofendido o pai. Esse seu modo de comportar-se realmente, que a seu juízo o tinha privado da dignidade de filho, não podia permanecer algo indiferente para o pai; devia fazê-lo sofrer e fazer com que ele se sentisse de algum modo, implicado nesse procedimento. E, no entanto, tatava-se afinal de contas do seu próprio filho, e esta relação não podia ser alienada nem destruída por nenhuma espécie de comportamento. O filho pródigo tem consciência disso, e é precisamente esta consciência que lhe mostra claramente a dignidade perdida e o leva a avaliar corretamente o lugar que ainda lhe podia tocar na casa do pai. Esta imagem precisa do estado de espírito do filho pródigo permite-nos compreender com exatidão em que consiste a misericórdia divina. Não há duvida de que, naquela simples mas penetrante analogia, a figura do pai nos revela Deus como Pai. O comportamento do pai da parábola, todo o seu modo de agir, que manifesta a sua disposição interior, permite-nos encontrar cada um dos fios que entretecem a visão da misericórdia no Antigo Testamento, numa síntese totalmente nova, cheia de simplicidade e profundidade. O pai do filho pródigo é fiel à sua paternidade, fiel àquele amor que desde sempre liberalizara ao próprio filho. Tal fidelidade exprime-se na parábola não apenas na prontidão de acolhê-lo em casa, quando ele voltou depois de ter esbanjado a herança, mas exprime-se ainda mais plenamente na alegria e no clima de festa tão generoso para com o esbanjador que regressa, que chega a provocar a inveja do irmão mais velho, o qual nunca se tinha afastado do pai nem abandonado a casa paterna.

A fidelidade a si própria da parte do pai- traço característico já conhecido pelo termo do Antigo Testamento “hesed” -, exprime-se, ao mesmo tempo, de modo particularmente denso de afeto. Lemos, com efeito, que, ao ver o filho pródigo regressar a casa, o pai, “movido de compaixão, correu ao seu encontro, abraçou-o efusivamente e o beijou-o” (Lc 15,20t). Ele procede deste modo certamente levado por um profundo afeto; e assim se pode explicar também a sua generosidade para com o filho, aquela generosidade que causara tanta indignação no irmão mais velho. Todavia, as causas daquela comoção hão de ser procuradas em algo mais profundo. O pai sabe que o que se salvou foi um bem fundamental: o bem da humanidade de seu filho.

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