Era preciso que fizéssemos festa

 

filho-prodigo

Continuação

E mais ainda, esta, de algum modo, foi reencontrada. É o que dizem as palavras que o mesmo pai dirigiu ao filho mais velho: “Era preciso que fizéssemos festa e nos alegrássemos, porque este teu irmão estava morto e voltou à vida, estava perdido e foi encontrado ”(Lc 15, 32). A fidelidade do pai a si próprio está centralizada inteiramente na humanidade do filho perdido, na sua dignidade. Por isso, sobretudo, se explica a comoção de alegria que manifesta quando o filho volta para casa.

Nesta mesma linha, pode-se dizer, portanto, que o amor para com o filho, o amor que brota da própria essência da paternidade, como que constringe o pai, se assim podemos nos exprimir, a ter solicitude pela dignidade do filho. Esta solicitude constitui a medida do seu amor; amor, do qual escreverá São Paulo: “A caridade é paciente, é benigna…, não busca o próprio interesse, não se irrita, não tem em conta a injustiça sofrida… rejubila com a verdade…, tudo espera tudo suporta” e “não passa jamais” (Lc 15,3-6). A misericórdia apresentada por Cristo na parábola do filho pródigo tem a forma interior do amor, que no Novo Testamento é chamado ágape. Este amor é capaz de debruçar-se sobre todos os filhos pródigos, sobre qualquer miséria humana e, especialmente, sobre, toda miséria moral, sobre o pecado. Quando isto acontece, aquele que é objeto da misericórdia não se sente humilhado, mas como que reencontrado e “revalorizado” O pai manifesta-lhe alegria, antes de mais por ele ter sido “reencontrado” e por ter “voltado a vida”. Esta alegria indica um bem que não foi atingido: um filho, embora pródigo, não deixa de ser realmente filho de seu pai. Indica ainda um bem reencontrado: no caso do filho prodígio o regresso à verdade sobre si próprio.

Aquilo que, na parábola de Cristo, se verificou na relação do pai para com o filho, não se pode avaliar “de fora” Os nossos preconceitos acerca da misericórdia é de maneira geral, o resultado de uma avaliação meramente exterior. Às vezes acontece que, detendo-nos no nível de um determinado modo de avaliar, percebemos na misericórdia, sobretudo uma relação de desigualdade entre aquele que a exercia e aquele a recebe, e ofende a dignidade do homem. A parábola do filho pródigo mostra que a realidade é diferente: a relação de misericórdia baseia-se na  experiência comum daquele bem que é o homem, na experiência comum da dignidade que lhe é própria. Essa experiência comum faz com que o filho pródigo comece a ver-se a si próprio e às suas ações com toda a verdade e esta visão na verdade é uma autêntica humildade; por outro lado para o pai, precisamente por isso, ele torna-se um bem particular.

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